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sinais no ar, ruínas no chão

O atual trabalho de Reynaldo Candia se constrói a partir de uma investigação persistente sobre matéria, combustão e suspensão. Ao longo de diferentes séries, o artista recorre a procedimentos variados e a uma extensa pesquisa de materiais e suportes, nos quais convivem técnicas tradicionais de desenho e pintura com dispositivos industriais, superfícies minerais e elementos luminosos. Essa diversidade não constitui dispersão, mas um campo coerente de experimentação onde cada série funciona como um modo distinto de fazer emergir imagens capazes de dar forma a uma mesma questão: como tornar visível um tempo em que o futuro parece obscurecido.

 

Na série Hefesto, realizada em grafite, nanquim e óleo sobre papel Fabriano, o artista constrói imagens que evocam vulcões, colunas de fumaça e formações atmosféricas instáveis. O gesto é simultaneamente preciso e oscilante: o desenho se desenvolve por meio de instrumentos de controle

— réguas, gradações, veladuras — mas resulta também em formas que parecem escapar à ordem, como se fossem produzidas por forças naturais que não se deixam conter. A referência ao fogo primordial, sugerida já no título da série, introduz um imaginário de origem e destruição, no qual criação e combustão se confundem, e onde a imagem surge como resultado de um processo, e não como descrição de algo previamente dado.

 

Na série Dukhan, em papel fine art com folha de ouro e grafite, a fumaça deixa de funcionar como figura identificável e se aproxima de um vestígio. O brilho do ouro não remete a um valor decorativo, mas a uma superfície que capta e devolve a luz de forma instável, como se a imagem estivesse permanentemente atravessada por uma atmosfera em suspensão. O grafite constrói formações nebulosas que oscilam entre nuvem, poeira e resíduo, tornando incerta a própria condição do que aparece.

 

Essa tensão entre materialidade e imaterialidade se radicaliza na série Caliça, composta por impressão em metal, lâmpadas e adesivo vinílico. Aqui, o trabalho abandona o plano tradicional do desenho e se torna objeto luminoso, quase um dispositivo. A luz não ilumina uma forma preexistente; ela participa da própria constituição da imagem. O que surge é uma espécie de sinal, como se estivéssemos diante de um fragmento de arquitetura que ainda emite um brilho residual, como se algo tivesse acontecido ali e restasse apenas sua irradiação. A presença do graute, do metal e da lâmpada aproxima a obra de um vocabulário construtivo, ao mesmo tempo em que sugere precariedade e colapso.

 

Na série Chapisco, realizada com concreto, folha de ouro e prata e metal sobre madeira balsa, o contraste entre peso e delicadeza se torna ainda mais evidente. O concreto, material associado à construção moderna, aparece fragmentado, irregular, como se fosse resto de um edifício ou de uma promessa interrompida. Sobre essa superfície áspera, a aplicação de metais preciosos introduz uma dimensão paradoxal: aquilo que deveria afirmar permanência revela fragilidade; aquilo que deveria ser precioso surge como vestígio.

 

Já na série Iridescência, composta por pinturas em tinta a óleo sobre algodão associadas à luz neon, a imagem parece emergir de um processo de combustão. A cor não se apresenta como pigmento estável, mas como irradiação. O neon intensifica essa sensação de presença atmosférica, transformando o trabalho em um campo luminoso que oscila entre paisagem e fenômeno físico, entre matéria e energia.

 

Apesar da diversidade de procedimentos, todas as séries são atravessadas por uma mesma questão: a dificuldade contemporânea de imaginar o futuro. As ruínas modernas — o concreto, o metal, a arquitetura interrompida — aparecem lado a lado com imagens de fumaça, névoa e combustão, como se o tempo presente estivesse suspenso entre aquilo que já colapsou e aquilo que ainda não consegue tomar forma. Há, nesse estado de suspensão proposto por Candia, uma sensação recorrente de que não apenas o passado se torna incerto, mas que essa nostalgia contemporânea se refere também à perda da capacidade de imaginar o futuro (BOYM, The Future of Nostalgia, 2001). Os sinais de fumaça que atravessam sua produção não são paisagens, mas índices de um tempo turvo, sem horizonte definido. Nuvens, vapores e atmosferas densas surgem como marcas de algo que aconteceu e cuja extensão ainda não pode ser medida. O que se vê não é exatamente o céu, mas aquilo que resta dele depois de um processo de combustão, como se a própria atmosfera tivesse sido atravessada por um evento irreversível.

 

Essa imagem evoca inevitavelmente a cena do filme Matrix (1999), em que Morpheus afirma que a humanidade queimou o céu e nos convida ao “deserto do real”, expressão tomada de Jean Baudrillard para designar um mundo em que a realidade se apresenta como resto, simulacro ou vestígio (BAUDRILLARD, Simulacres et simulation, 1981). Aqui, essa sensação se traduz em superfícies que parecem ter sobrevivido a um incêndio, a uma implosão ou a um apagamento, como se a  matéria conservasse a  memória de um  acontecimento  que já  não pode ser  plenamente reconstruído.

 

Os trabalhos de Candia funcionam assim como dispositivos, ou mesmo como pequenos monumentos à incerteza. A luz que emana dos objetos não é apenas iluminação, mas um brilho ambíguo — pode ser o reflexo de um incêndio que ainda não se extinguiu, ou o de uma manhã incapaz de dissipar completamente o nevoeiro. O espectador se encontra diante de algo que oscila entre construção e ruína, entre sinal e apagamento. Essa ambiguidade se materializa formalmente no contraste recorrente entre o peso do concreto e a leveza do grafite, entre a rigidez geométrica e a fluidez da fumaça. Em muitos trabalhos, o uso de instrumentos de precisão — linhas retas, delimitações, cortes — sugere ordem, cálculo, estrutura, enquanto sobre essa superfície controlada se depositam gestos livres, manchas e vapores que se expandem sem contenção. A oposição entre ordem e caos não aparece como conflito resolvido, mas como condição permanente: o concreto sustenta, mas também racha; a linha organiza, mas não impede a dispersão; a luz revela, mas ao mesmo tempo ofusca. Entre o chão pesado da construção moderna e o ar instável da fumaça, o trabalho de Reynaldo Candia situa o espectador num intervalo, um espaço de instabilidade em que a imagem já não descreve o mundo, mas se forma no interior de suas ruínas, como sinal de um tempo que ainda procura, sem garantia, a possibilidade de futuro.

 

 

 

 

Regina Johas — 17.03.2026

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