Texto
A arqueologia como prática: um olhar sobre a poética de Reynaldo Candia
Sempre tive obsessão por livros. Ao ponto da imagem da morte ser para mim, o soterramento por todos os livros que não li.
Ao cruzar a obra de Reynaldo Cândia reconheci um igualmente aficcionado por esse objeto-cofre que guarda textos e signos da história da humanidade.
Na sua produção, ora aparecem como simulacros de gesso, que sob ação do tempo se transformam em cacos entre os escombros, sugerindo a imagem de uma civilização em ruínas, ora como suporte para a pintura, ou lacrados, chumbados em concreto, como lápides para as ideias corroídas de uma possibilidade de urbe planetária, ou simplesmente tendo suas páginas coladas com tinta, para que nunca mais alcancem os incautos com suas falácias de nação do período autoritário no qual o artista se formou.
Cândia sempre ressalta que vem de uma família de arquitetos e que suas ferramentas de trabalho não são o pincel e os coloridos suaves, mas a espátula e a pá de pedreiro da construção civil, o pigmento de óleo grosso e rude, que revelam uma arte crítica, forjada na fadiga dos materiais.
O verbo escavar é o que mais aparece em sua obra. Sua técnica é a de um arqueólogo da imagem, que ao retirar as camadas de materiais revela vestígios, que nos colocam diante dos diversos aspectos contraditórios da civilização/barbárie.
Esses trabalhos me empurraram a vasculhar a minha biblioteca empoeirada atrás de vestígios foucaultianos… A arqueologia do saber, As palavras e as coisas… reflexões sobre o emaranhado das narrativas que dão notícia de uma história das ideias que se constituiu da acumulação de saturações lentas e rupturas que originaram camadas sedimentares diversas.
O artista desabafa com certa indignação que uma vez lhe disseram: “-o que você faz não é arte, é história.”
Cândia faz arte que ao mesmo tempo que constrói a sua poética e procura uma linguagem, refaz a jornada de uma humanidade em busca de si, desde o primeiro risco nas cavernas até o lançar-se aos oceanos de águas e estrelas.
Nos faltam palavras para dizer, e a obra do artista se torna o ato de friccionar a matéria em busca da palavra que ordene o indizível. Ao mutilar o reboco do seu ateliê, Reynaldo deixa cicatrizes-verbo na pele do concreto.
O que me parece é que Reynaldo, nessa busca da compreensão do mundo e de si, não se satisfaz em retirar camadas da matéria como um arqueólogo errante, mas por vezes é impelido a atravessá-la, o que faz com método e precisão, como um construtor determinado impõe seus cortes secos e concêntricos, penetrando seja a celulose dos compêndios ou o gesso das suas precárias bibliotecas.
Ao escavar seus túneis no objetos-livro, muitas vezes, preserva algumas palavras que encontra pelo caminho. Aquelas das quais o artista não consegue ou não quer se desfazer. Talvez aquelas que iludem com as suas possibilidades de expressão.
Suas esculturas-objeto feitas com lentes e unidades materiais folhosas encontradas em sebos, também falam de tempo e de sua ação sobre as coisas, quando remetem à instrumentos dos primórdios da navegação.
A questão nacional e a política também povoam o imaginário do artista, tanto quando cria o mapa do Brasil como fragmento de piso, com o afetivo mosaico de caquinhos de cerâmica, tão comum nas casas paulistanas dos anos 1970, bem como em colagens que revelam o mapa da América Latina em toda a sua diversidade e história de resistência e opressão.
No trabalho intitulado “O concreto já rachou” de 2022, Reynaldo revisita a ideia das ruínas aliando aos seus estudos com a bandeira nacional, sempre na perspectiva de descontruir esse signo associado a um ufanismo glorioso tanto no passado mais distante, quanto num passado recente quando uma parte do país se lança a insanidade fascista.
O artista ao investigar as coloridas e solares fachadas da arquitetura popular do Nordeste, as platibandas, que emergem de maneira geométrica e singela, traz o território que é para ele um refúgio de vida e de criação dando continuidade as suas produções sobre o Nordeste. E diz: “-O Nordeste nos salvou do fascismo!”
Acredito que o Nordeste venha nos salvando há tempos, com a riqueza de uma cultura da invenção que mesmo em meio a escassez e a secura impostas por conveniências dos interesses políticos e econômicos, vêm doando, amorosamente, pura poesia e luta.
Renata Viana de Barros Thomé